Moradores do Santa Tereza, bairro da região sudeste atingido por deslizamentos de terra em março deste ano, temem por novos acidentes com o início de mais um período chuvoso em Juiz de Fora. O receio aumenta com problemas encontrados nas redes pluvial e de esgoto que passam pela rua Edgard Carlos Pereira, uma das principais afetadas nos desmoronamentos.
Segundo os moradores, os novos problemas começaram no início de novembro, quando a rede de esgoto entupiu e fez com que algumas casas da rua fossem inundadas (veja vídeo ao lado).
Durante o trabalho de desentupimento, profissionais da Cesama encontraram material hospitalar na rede de esgoto. As luvas, máscaras e gazes retiradas podem ter origem do hospital que fica na mesma rua, um pouco acima do local atingido.
A direção do hospital diz que possui um programa de gerenciamento de resíduos de saúde.
O diretor José Antônio Chehuen Neto acredita que o material encontrado na
rede de esgoto no bairro não seja
do hospital. "O material encontrado é vendido para o público. Qualquer pessoa da cidade
pode ter aquilo em casa"
, lembra.
Segundo o diretor, todos os resíduos hospitalares do hospital são segregados, feita a coleta seletiva e entregue aos caminhões da Prefeitura para o depósito conveniente.
O presidente da Associação dos Proprietários e Inquilinos das Casas Interditadas e Demolidas pela Prefeitura, Reinaldo Recepute Freesz, acredita que a rede pluvial e a de esgoto da rua estejam sobrecarregadas pelo volume de material despejado pelo hospital.
Para o advogado das famílias atingidas pelo desmoronamento, José
Marques Júnior, deve ser feita uma investigação para apurar as
responsabilidades do hospital e da Prefeitura
de Juiz de Fora (PJF) nos transtornos causados desde março
deste ano. "Mesmo que o hospital esteja errado na destinação do esgoto, a
Prefeitura tinha que ter fiscalizado"
.
O diretor da Cesama, Amaury Couri, garantiu que, após o incidente do
início de novembro, uma obra (foto ao lado) foi feita no local para inserir uma tela na entrada da
rede de esgoto e direcionar a rede pluvial do hospital para que as águas da chuva corram
pela rua. Amaury diz, ainda, que o trabalho da Cesama é lidar com o fornecimento
de água e esgoto, sendo da Prefeitura a responsabilidade pela captação das águas pluviais.
"Mas no caso específico de Santa Tereza, por tudo o que aconteceu lá, nós tomamos o cuidado de fazer com que as águas pluviais não entrassem na rede de esgoto. Ao contrário do que foi divulgado, nós não ligamos a rede pluvial na rede de esgoto. O que pode acontecer é o contrário. Mas nunca pode-se ligar a rede pluvial na de esgoto", explica o diretor.
A Defesa Civil determinou, ainda, que as bocas de lobo da rua Edgar Carlos Pereira fossem fechadas para que não houvesse infiltração de água pluvial no solo. Após as obras, as águas da chuva que descem do hospital foram direcionadas para a rua. A partir da rua afetada pelos deslizamentos de terra, as bocas de lobo voltam a captar a água.
Os moradores do Santa Tereza reclamam também de um buraco (foto ao lado) que se abriu no início
da rua Edgar Carlos Pereira, esquina com a
Delfino Nonato Faria. O
presidente da Associação dos Moradores acredita que toda a rede
de esgoto da rua pode estar comprometida. "Isso pode aumentar
ainda mais o risco de um novo deslizamento"
, ressalta Reginaldo.
Nesta quinta-feira, 20 de novembro, técnicos da Cesama, da Defesa Civil e da PJF vão ao bairro para verificar o buraco. "Pode ser que o buraco não tenha a ver com isso, mas nós não vamos deixar de olhar", diz Amaury.
O diretor da Cesama admitiu que não há uma garantia técnica de que novos problemas não vão ocorrer no bairro. Por isso, ele afirma que a Prefeitura vai dar atenção especial ao Santa Tereza no período chuvoso. Ele garantiu que a Cesama e a Defesa Civil vão evitar abrir valas nas ruas do local. "Qualquer tipo de vala pode ajudar a movimentar o maciço. Não podemos correr esse risco no período de chuvas", alertou.
Na última terça-feira, 18 de novembro, em uma tensa reunião com o promotor de Urbanismo e Meio Ambiente, Júlio César da Silva, e representantes dos moradores, o prefeito José Eduardo Araújo concordou em contratar o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) de São Paulo, para realização de um estudo geotécnico e geológico do local.
A proposta é que os técnicos avaliem os riscos de novos deslizamentos e apontem as causas que levaram a todos os problemas enfrentados pelos moradores desde o início do ano. O IPT já esteve no bairro em março, mas realizou apenas um laudo preliminar, que confirmou o alto risco da área. A contratação do novo estudo será negociada pelo Ministério Público.
O documento afirma que "tais eventos são acelerados pela intervenção antrópica,
face a fatores como remoção de cobertura vegetal original, cortes e desaterros
em áreas localizadas para a implantação de vias, edificações, obras de
infra-estrutura e saneamento; fundações relativamente rasas das edificações
localizadas no topo da encosta; interferência no nível do lençol freático
local em virtude de sua interceptação a partir das edificações e obras
implantadas junto a rua José Ladeira"
.