
Ludmila Gusman
1º/07/02
JFService - Como você chegou ao Brasil?
Isabelita - Nasci em Buenos Aires e estou há 32 anos no Brasil. Cheguei aqui no dia 31 de
julho de 1970, lembro-me como se fosse hoje. Meu primeiro contato com o país
foi através de um cartão postal que ganhei de meu pai. Ele trabalhava nos
Correios e deu de presente a cada um dos quatro filhos um cartão diferente.
O meu era uma linda imagem do Rio de Janeiro à noite. Fiquei encantado com o
postal, achei maravilhoso. Depois fui morar em Rosário, lá na Argentina, e estudei numa escola
chamada Estados Unidos do Brasil. Lá eles ensinavam história, geografia e
eu aprendi o hino brasileiro. Meu pai tinha uma orquestra e comecei a me
interessar por instrumentos brasileiros, as professoras ficavam
encantadas comigo. Aos 11 anos minha professora me convidou para fazer o
Bumba-Meu-Boi. Participei também de festas em comemoração ao 7 de Setembro,
na embaixada do Brasil em Buenos Aires. Meu sonho era conhecer o povo
brasileiro,
passear na Cidade Maravilhosa. Mais tarde consegui um emprego no Consulado
do Brasil na Argentina, servindo cafezinho, foi meu primeiro emprego. Nesse
período, não havia cônsul. A secretária de lá ficou muito minha amiga e
quando o consul chegou ela me apresentou como o seu braço direito. Fiz meu
trabalho tão bem que até o consul gostou de mim. Ganhei uma passagem para
visitar o Brasil. Passeei no Rio de Janeiro durante 15 dias. Como eu era
menor de idade, tinha 18 anos na época, não pude ficar. Então voltei para o
Consulado e trabalhei por lá algum tempo. Aos 21 anos, quando terminei de
prestar o serviço militar, pedi uma carta de recomendação ao consul e vim
para o Brasil. Cheguei com a "cara e a coragem", fiquei deslumbrado com a
Cidade Maravilhosa. Meu primeiro trabalho aqui foi de entregador de jornal,
mas também trabalhei como auxiliar administrativo, auxiliar de
contabilidade, vendedor ambulante. Fiz mil e uma coisas.
JFService - Como surgiu a idéia de criar a Isabelita dos
Patins?
Isabelita - A Isabelita nasceu sete meses depois que cheguei ao Brasil, em fevereiro de
1971. Era Carnaval e eu não sabia dançar. Eu via aquela alegria toda, todo mundo
animado, queria me destacar também. Como eu sei patinar, desde os nove anos
de idade, resolvi colocar os meus patins e me vestir como uma drag. Coloquei
um maiô com um tule na cintura, enrolei outro na cabeça, pintei meu rosto de
branco e saí desfilando pela Avenida Atlântica. Parecia uma vovó Mafalda. Me
arrumava na rua mesmo, atrás de um caminhão. Até então, a Isabelita só aparecia no
Carnaval. Era uma brincadeira que começou a chamar a atenção das pessoas,
uma atração, agora vivo da personagem.
JFService - De onde vem o nome Isabelita?
Isabelita - Numa dessas aparições no Carnaval, um jornalista chegou perto
de mim e me perguntou de onde eu era. Respondi que era argentino e então ele
disse: ah, você é a Isabelita dos Patins. Naquela época a primeira dama da
Argentina era a Isabelita Peron. Gostei do nome e batizei a personagem
assim.
JFService - E o sucesso da personagem, quando aconteceu?
Isabelita - Como eu gostava muito de crianças passei a colocar nos bichinhos de pelúcia o
patins e ia entregando às crianças e, para as mães deixava meu cartão. Com
isso, além de aparecer no Carnaval, eu comecei a fazer shows infantis também. Até que
no Reiveillon de 93 para 94, uma boate me contratou para receber os
convidados. Nesse dia, alguns amigos me desafiaram dizendo que eu não teria
coragem de sair pela Avenida Atlântica vestido daquele jeito. Para provar a
eles que não tinha vergonha eu fui. Quando passei por lá ouvi umas pessoas
gritando: linda, maravilhosa, ela é demais. Quando eu olhei, esperando ver
gays, eram adolescente. Aquilo chamou minha atenção. Achei muito bonito, uma
demonstração de carinho. Dei uma pirueta e joguei um beijo para eles. Quando
eu virei enconstei em um homem. Quem estava por perto gritou: beija, beija,
beija. Tudo na brincadeira... Eu então encostei meu rosto nesse homem e
nunca vi tanto flash na minha vida. Surgiu fotógrafo de tudo quanto é lado.
Sem saber quem era o homem, fui embora. No dia seguinte, fui procurar na
banca de jornal se minhas fotos tinham saído e para minha surpresa estava
escrito na capa dos grandes jornais: Isabelita do Patins beija Ministro da
Economia Fernando Henrique Cardoso”. A partir daí começaram muitos convites.
A Isabelita passou a ser convidada para muitas festas, programas de TV,
entrevistas. Já fui em todos os programas de televisão, só ainda não fui no
da Xuxa. Já fiz campanhas publicitárias. Foi a partir daí que comecei a
acreditar no meu potencial e investir para valer na drag queen. Já
participei da novela "Explode Coração", a personagem Sarita do ator Floriano
Peixoto foi inspirada na minha vida. A novela mais recentemente foi "O
Clone". Nesta fiz poucas cenas, uma no bar da dona Jura e a outra na loja do
Mohamed. Sempre que a Glória Perez pode ela me encaixa nas suas tramas.
JFService - Demora muito tempo para a Isabelita ficar pronta?
Isabelita - Eu mesmo me pinto, costumo levar uma hora me maqueando e quase duas para
ficar totalmente pronta. Me arrumo ouvindo músicas de Ângela Maria. No meu
guarda-roupa tenho 42 modelitos diferentes, um deles eu ganhei da bailarinha
Ana Botafogo e o adaptei ao meu corpo. Ganho muitas coisas também, jóias,
enfeites.
JFService - Fale mais um pouco sobre quem é você, Jorge
Iglesias.
Isabelita - Isabelita é uma figura folclórica do carnaval carioca, uma personalidade que
leva alegria às pessoas, sem importar a idade. Com o meu sucesso e os
convites que foram surgindo, em 1995, eu cidadão Jorge Iglesias adotei a
creche Noel Rosa, no bairro Vila Isabel. São 250 crianças filhos de mães
solteiras eu sou como um pai para elas. Passei a ajudá-las em tudo que
precisassem roupas, medicamentos, alimentação. Hoje sou o Papai Noel
oficial. Várias personalidades já contribuíram. Empresários, a Miss Brasil
Márcia Gabriela, o ator Thierry Figueiras e muitos outros, por meu
intermédio. Lembro uma vez em que um empresário mandou uma tonelada de alimento
para lá. Era tanta coisa que distribuímos também para outras entidades.
Ajudo pessoas doentes, asilos, participo de campanhas beneficentes. O meu
lema é fazer o bem, sem olhar para quem. Abraço essa causa nobre, porque me
sinto feliz em poder ajudar. Nunca tive nada disso e se hoje tenho condições
de ajudar, por que não fazer? (emociona-se).
JFService - Qual a sua opinião sobre o Miss Brasil
Gay?
Isabelita - Sem palavras, o Chiquinho está de parabéns, o evento é um sucesso. O Miss
Gay é um carnaval fora de época em Juiz de Fora. Já recebi muitas
manifestações de carinho aqui das pessoas, dos comerciantes. Sempre que
venho fico nos hotéis como cortesia. Passo nas ruas e todo mundo elogia a
Isabelita é um carinho muito grande. Adoro Juiz de Fora, a cidade está de
parabéns.
JFService - E os projetos para a Isabelita, quais são?
Isabelita - Tenho muitos projetos. Agora estou lançando a boneca da Isabelita dos
Patins. É uma maneira de retribuir a cada um de vocês e dizer obrigado ao
povo brasileiro e à imprensa pelo carinho, ternura e admiração para comigo,
Jorge Iglesias e o meu personagem Isabelita dos Patins. As bonequinhas serão
lançadas em Juiz de Fora, dias 16 e 17 de agosto, na loja do Zé Kodac. Ano
que vem irei lançar um livro contando a minha história. É uma lição de vida.
Vim com cara e a coragem para o Brasil, me tornei uma personalidade com o meu
personagem.
JFService - Como é a boneca?
Isabelita - São todas artesanais. A roupa é feita de sobras de fantasias que consigo em
lojas que vendem produtos de Carnaval. Algumas coisas como gliter, tintas,
cola, tule, rodinhas, eu compro com o meu dinheiro. Elas ficam lindas. Tive
a idéia de lançar ao fazer uma participação na novela "Explode
Coração", entreguei a boneca à cigana Dara, vivida pela atriz Tereza
Seiblitz. Choveram telefonemas de pessoas pedindo a boneca. Mas na época não
tive quem me apoiasse para fazer o trabalho. Hoje conto com a ajuda de dois
artistas, o Sr. Ismael que pinta as carinhas uma por uma e a Sra. Solange
que coloca o cabelo e as vestes, com os patins e a coroa. Elas serão
vendidas a R$ 15. Com a venda das bonequinhas artesanais vou fazer muitas
crianças felizes, muitas famílias, alguns velhinhos e portadores de HIV,
comprando alimentos, roupas, cobertores, remédios, cadeiras de rodas,
muletas.